Então os executivos da EMI devem estar preocupados,
pois Think Tank não convence. Logo de cara, o disco
chega a assustar. Muitos dos fãs de longa data, indignados
com a saída do herói Graham Coxon, torceram
o nariz para o novo disco. Mas não é tão
ruim assim, já que Think Tank é daqueles discos
que vai se revelando aos poucos, e contém grandes
momentos.
Um
deles é a faixa de abertura "Ambulance",
num arranjo sensacional e boa melodia de Damon Albarn. O
baixo está em primeiro plano, juntamente com batida
eletrônica. Aliás, Dave Rowntree saiu da banda
junto com Coxon? Praticamente não se notam traços
de bateria "humana" no disco. Ainda assim, ao
ouvir "Ambulance" dá para pensar que o
Blur consegue se manter na boa sem um guitarrista de ofício,
tamanha a vitalidade da banda nessa faixa.
O
single "Out Of Time" é uma balada também
carregada no baixo com alguns floreios orientais, justificados
pelo disco ter sido gravado no Marrocos. "Out Of Time"
também não chega a fazer feio, embora não
tenha o mesmo brilho dos tempos de "To The End",
que chega a lembrar em alguns momentos.
O
arranjo de "On The Way To The Club" não
chega a ser tão interessante, mas Albarn manda ver
mais uma boa melodia. Em "Sweet Song" a banda
finalmente volta a mostrar algum brilhantismo, trata-se
de uma belíssima balada, entre as melhores de sua
carreira. Levada no piano, com percussão simples,
coro e um distante violão completam o arranjo, nota
10. Outra bela balada é "Battery on You Leg",
melancólia e arranjo certeiro. Trata-se da última
participação de Coxon na banda.
Mas
o resto...
O
que dizer de "Crazy Beat"? Trata-se do óbvio
segundo single que carrega as esperanças da banda
de repetir o fenômeno "Song 2". Produzido
por Fatboy Slim, vem em ritmo de festa recheado de guitarras
distorcidas (lembrando "Bugman") em camadas de
overdubs que dão uma artificialidade desconfortante
ao que poderia ser uma canção bem palatável.
A música é marcada por um efeito vocal (vocoder?)
intermitente que soa um tanto deslocado. O truque funcionou
na divertidíssima "B.L.U.R.E.M.I." do álbum
13, mas aqui não convence. Para completar, o trecho
onde Damon canta "I love my brothers on a Saturday
night" lembra perigosamente uma passagem de "Fell
In Love With a Girl" do White Stripes.
Em
"Good Song" fica evidente o que representa Graham
Coxon para o Blur. É mais uma balada muito inspirada
de Damon Albarn, mas que é baseada numa frase de
violão sampleada, mais uma vez trazendo uma artificialidade
sufocante. O Blur bate na lona na terrível "Brothers
And Sisters", construída em cima de bases eletrônicas.
É nesse ponto que se torna óbvio o principal
problema do "novo" Blur: a ausência de estrutura
nas músicas, uma notória especialidade do
grupo, em favor de bases repetitivas.
"Caravan"
se arrasta sem sair do lugar numa lentidão letárgica,
sendo parcialmente salva por um belo teclado na segunda
metade da música. "We've Got A File On You"
é uma espécie de Punk Rock Marrakesh, que
funciona melhor como vinheta do que propriamente uma música.
"Moroccan Revolutionary Bowls Club" é a
que mais se aproxima de Gorillaz e funciona bem, até
se perder em mais efeitos de vocoder.
Lembra
aqueles dias onde dá tudo errado e só falta
chover? É "Jets".
"Jets"
concorre com "Brothers And Sisters" no páreo
de pior música do disco. Beira o insuportável,
total vazio de idéias. O que poderia ser pior? Um
solo de sax?
Pois é, e eis que perto do final de "Jets"
surge um estranhíssimo solo de sax, em alguns momentos
totalmente desconectado do andamento da música. Choveu.
"Gene
By Gene" traz alguns dos elementos do antigo Blur,
é uma boa canção pop, estruturada de
maneira bem convencional, verso-refrão. Mas o potencial
pop é desperdiçado sob os arranjos modernosos
do novo Blur, bateria e efeitos eletrônicos. Mais
uma vez resta para o baixo sozinho o trabalho de carregar
a canção. Aliás, Alex James deve estar
contente, sua presença nunca tinha sido tão
determinante em um álbum do Blur. Já a faixa-bônus
"My White Noise" serve para trilha de rave, e
agrada. Pela primeira vez no disco, efeitos eletrônicos
no vocal são bem usados, criando uma apoteose irresistível.
Mas é necessário retroceder manualmente a
faixa 1 do CD para poder ouví-la.
Os
fãs do Blur estão desde agora torcendo pelo
retorno de Graham Coxon, que parece improvável devido
ao caminho que a banda está seguindo. Aliás,
depois de Think Tank, percebe-se melhor que 13 já
não seria uma mera continuação dos
acertos do album Blur de 1997, já indicava o início
de algo novo. Para alguns, o início do fim. Claro
que o Blur já surpreendeu muitas vezes, mas se for
para lançar trabalhos inconsistentes como Think Tank,
é melhor que Damon Albarn comece logo sua carreira
solo. E assim deixar o nome de sua banda entrar para a história
do alto da glória conquistada na última década.