"Frank
Black" é o título de seu primeiro disco e o nome que Francis
adotou a partir dali. É um daqueles discos que não envelhece,
conduzindo o ouvinte a uma atmosfera própria, sem se prender
a estilos ou épocas, um disco único, que vale a pena correr
atrás.
A primeira faixa é "Los Angeles", música que teria sido
um hit se a parada de sucesso fosse algo justo. A música
é divida em duas partes, na primeira, um rockão furioso
de riff poderoso e bateria que abusa dos pratos. Depois
do rock, a melancolia de uma balada acústica. A letra é
bem típica das excentricidades de Frank Black, Los Angeles,
não aquela do sul da Califórnia, temos uma no sul da Patagônia.
Em seguida temos "I Heard Ramona Sing", uma espécie de homenagem
ao Ramones, mas que pouco remete ao som da banda homenageada.
É uma balada de arranjo caprichado, violão e guitarra duelam
na introdução de mais um minuto.
O clima de homenagem continua, com "Hang On To You Ego",
cover dos Beach Boys. A versão de Frank Black consegue ser
bem fiel ao original, mesmo com um arranjo completamente
diferente. Pela primeira vez aparece mais uma das marcas
desse disco, os teclados, que dominam a faixa dividindo
a importância com as guitarras. Vale lembrar que a produção
do disco ficou a cargo do próprio Frank Black em parceira
com o tecladista Eric Drew Feldman, um veterano com anos
e anos de serviços prestados ao underground tocando na banda
Pere Ubu.
O disco perde um pouco o pique com a arrastada "Fu Manchu",
que deixa uma interrogação no ar. O encarte do disco informa
a participação de um saxofonista, resta saber se é nessa
faixa ou o som de metais de "Fu Manchu" é fruto dos teclados
mágicos de Eric Drew Feldman? Talvez seja nas duas!
"Places Named After Numbers" engana o ouvinte com sua introdução
grandiosa de teclados e sintetizadores para depois se revelar
uma balada ortodoxa levada no violão e guitarra. Bela canção,
embora o refrão não esteja entre os mais memoráveis do Frank
Black. "Czar" é uma das pérolas do disco, levada no peso
das guitarras (com algumas firulas aqui e ali dos sintetizadores
de Feldman), a música vai ganhando intensidade até o gran
finale. Outra preciosidade é a acústica "Old Black Dawning"
é uma canção pop do nível de "Here Comes Your Man". A ácida
"Ten Percenter" é tida como uma homenagem a Iggy Pop, embora
pouco relembre Iggy ou Stooges. "Brackish Boy" é mais um
fruto das idiossincrasias de Frank Black. Nos tempos dos
Pixies era comum aparecer músicas e expressões em espanhol.
"Brackish Boy" é mais uma delas, a letra é em inglés, mas
ele ataca com violões bem hispânicos. A música conta a história
estranhíssima do cara que era mexicano, foi adotado por
noruegueses, transformado em inglês mas que sempre se sentiu
um mexicano. O final é digno das grandes tragédias latinas,
o sujeito acaba com a cabeça esmagada por um caminhão gigante
na estrada para o México!
"Two Spaces" é uma canção bem simples, com arranjo excelente,
pontuado pelo sintetizador meio retrô de Feldman. A empolgante
"Tossed" é a faixa instrumental do disco, com excelente
trabalho das guitarras, Frank Black contou nesse disco com
o apoio do colega de Pixies Joey Santiago. "Parry The Wind
High, Low" explora temas alienígenas, outro tema recorrente
das letras de Frank Black. "Adda Lee" é outra pérola, os
teclados e guitarras se complementando perfeitamente (aquela
paradinha é um espetáculo) e o final é apoteótico. "Every
Time I Go Around Here" não chega a impressionar e o disco
termina em grande estilo na animação pop de "Don't Ya Rile
'Em".
Frank Black mostra todo o seu talento e ecletismo em seu
primeiro trabalho solo. O disco é uma verdadeira aula de
como usar os recursos de produção, criando um som grandioso
sem cair nas armadilhas do exagero, explorando cada detalhe
das melodias e evidenciando o som dos instrumentos, sem
enterrá-los em efeitos desnecessários.