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"It's
A Shame About Ray", lançado em 1992 é
o grande momento do Lemonheads, em todos os sentidos.
A banda já tinha mostrado talento e potencial
no bom (mas irregular) "Lick" de 1988, que
rendeu o assédio das grandes gravadoras. O álbum
"Lovey" (1990), já por um grande selo,
manteve a qualidade, mas "It's a Shame About Ray"
foi definitivamente um passo adiante. |
Finalmente o Lemonheads conseguiu
ser consistente, gravando um disco que vai da primeira a última
faixa sem mudar de rumo e sem atirar para todos os lados.
E o principal de tudo: mantém a qualidade. Não
há uma única música descartável
(o chamado filler) em "It's A Shama About Ray",
todas as faixas são igualmente importantes.
E o rumo escolhido pelo Lemonheads
foi o pop. Talvez não por razões meramente comerciais,
em 1992 o Lemonheads já tinha cancha e respeito o suficiente
no underground para desmentir possíveis especulações
desse tipo. Na verdade, foi um caminho natural para quem vinha
mostrando um talento inegável para melodias simples
e assimiláveis e letras cotidianas. A despretensão
e o descompromisso são as marcas do disco, onde nada
é grandioso, tudo é mundano e acessível.
Mesmo as músicas mais rápidas tem na leveza
um apelo irresistível. Um grande disco que o Lemonheads
infelizmente jamais pôde superar.
"It's a Shame About Ray"
abre com "Rockin' Stroll", que por si só,
resume o espírito do disco. Vibrante e bem humorado,
"Rockin' Stroll" não tem um refrão
bem definido e nem precisa, de tão boa que é
a melodia. Menos de dois minutos depois, já estamos
na segunda faixa, "Confetti", que fala do cara que
teria todos os seus problemas resolvidos se amasse aquela
guria. É, mas as coisas não são tão
simples e nenhum cara pode escolher a quem amar, então
por que não abrir um sorriso e fazer uma alegre e divertida
canção a respeito.
O assunto fica mais sério
na faixa título, uma belíssima balada que lida
com as lembranças de alguém que já partiu
(no caso o Ray). O tom até poderia ser mórbido
e sofrido, o refrão fala "It's a Shame About Ray
/ In a stone under the dust his name's still engraved",
mas Evan Dando canta com uma leveza envolvente. O arranjo
é primoroso, na combinação perfeita entre
violão e guitarra. Aliás, outra das marcas do
álbum é a combinação harmoniosa
do acústico dos violões com as guitarras.
Na tranquila "The Tunrpike
Down" aparece pela primeira vez o backing vocal meigo
e delicado de Juliana Hatfield, o que é um diferencial,
mas a música não chega a entusiasmar, se perdendo
em meio ao refrão repetitivo e pouco inspirado.
"My Drug Buddy" é
uma daquelas músicas emblemáticas e surpeendentes.
Aparentemente não tem nada de especial, uma balada
tranquila até que a letra se mostra reveladora e, infelizmente,
realista. De início parece uma singela canção
de amor, sobre o entuasiamo da menina ao falar no telefone
com, supõe-se, o amado. Depois de mais alguns versos,
a letra revela um tema muito mais amargo a partir do trecho:
"There's still some of the same stuff we got yesterday".
Na verdade, a menina estava falando ao telefone com o traficante
para conseguir a mesma droga do outro dia. A partir daí,
fica óbvio que a letra fala de um tipo de relacionamento
muito cruel, os parceiros de droga. Não existe amizade
ou amor nesse tipo de relação, unicamente a
cumplicidade da droga. Antes do final da música, uma
frase fica martelando, como um pedido de socorro disfarçado
de desabafo ou protesto: "I'm too much with myself, I
wanna be someone else..."
"Rudderless" fica
a meio caminho, não se destaca mas também não
compromete, enquanto que "Bit Part" retoma o a vibração
e o bom humor de "Rockin' Stroll" e "Confetti".
A bem-sucedida fórmula é a mesma, a melodia
alegre fácil de assimilar e a letra agrada.
"Allison's Starting to
Happen" é ainda melhor, seguindo o mesmo tom leve
e vibrante de "Bit Part" (e por tabela, do restante
do álbum), com destaque para a letra clássica
que conta a história da menina que acorda para a vida
no momento em que descobre o punk rock.
"Kitchen" é
mais uma canção simples e irrepreensível.
A letra fala de coisas pequenas do dia-a-dia dos relacionamentos.
"Repetimos a mesma história, mas é claro,
nunca na frente dos amigos / Sobre como tudo começou
na cozinha". Poucas vezes um disco foi tão uniformemente
colorido e alegre.
"Ceiling Fan In My Spoon"
ou "ventilador na minha colher"(?) seria forte candidata
numa eventual competição para o título
de música mais esdrúxulo. Mas a música
agrada, com uma pegada um tanto mais roqueira, mantendo a
espontaneidade e descontração das anteriores.
"Frank Mills" é
um cover inusitado para uma música da trilha de Hair,
o famoso musical dos anos 70. Na versão do Lemonheads,
apenas um violão acompanha a voz de Evan Dando. Apesar
de aparentemente Hair não ter absolutamente nada a
ver com Lemonheads, é surpreendente como "Frank
Mills" se encaixa bem no disco. Muito disso é
em função da letra (simples e cotidiana), que
vai descrevendo o personagem da música e narrando diversas
situações.
"Mrs. Robinson" cover
do clássico de Simon & Garfunkel fecha o disco
com chave de ouro, adicionando uma pegada rock irrestível
ao mesmo tempo que mantém intocável a excelente
melodia do original.
É uma pena que mesmo
depois de um disco como "It's a Shame About Ray",
o Lemonheads não tenha conseguido se firmar. Hoje em
dia, o Lemonheads está praticamente esquecido. É
uma pena, pois em algum lugar entre o apelo pop de um Foo
Fighters e a raiz americana de um compositor como Ryan Adams,
certamente o Lemonheads teria o seu lugar garantido. |