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O rock com cérebro

Smashing Pumpkins detona o pop preguiçoso e inova a linguagem do gênero num ótimo CD duplo

Celso Masson

De tempo em tempo aparece no mundo do rock uma banda querendo dar uma reviravolta no gênero. Em 99,9% dos casos não passa de puro marketing, com muita pose e pouco som. Não é esse o caso dos Smashing Pumpkins. Seu mais recente disco, Mellon Collie and the Infinite Sadness, é um divisor de águas na história do rock, como foram Pet Sounds (1966), dos Beach Boys, pioneiro na onda lisérgica, Dark Side of the Moon (1973), do Pink Floyd, que abriu caminho para o rock dos anos 70, e Never Mind the Bollocks (1977), do Sex Pistols, que inventou o punk. Mellon Collie mostra que o futuro do rock é mais diversificado e profundo do que parecia na primeira metade desta década, quando o grunge quase acabou com o gênero.

Os Smashing Pumpkins (nome que quer dizer algo como "abóboras que esmagam") são de Chicago, cidade famosa por causa da Máfia, dos arranha-céus e por um grupo meloso dos anos 70 que atendia pelo mesmo nome. Surgido no início dos anos 90, mesma época do grunge, o grupo veio para sepultar o rock de Seattle. O CD Mellon Collie foi apontado como o melhor de 1995 pela revista Time. Ficou à frente de Bruce Springsteen, o roqueiro que ganhou um Oscar, e de uma versão da ópera La Bohème com a soprano Kiri Te Kanawa. Elogiosa, a revista descreveu o grupo como "um Ícaro cujas asas não derretem", fazendo alusão à ambição cega do vocalista da banda, Billy Corgan. Quem achar que é exagero pode tirar a prova dos noves. Mellon Collie, CD duplo com 28 músicas, chega às lojas brasileiras nesta semana. É um disco destinado a servir de atlas para os roqueiros em início de carreira, algo que não ocorria desde Nevermind (1991), do Nirvana, que estabeleceu o grunge como padrão de música, moda e comportamento teen no mundo todo.

Além do disco, os brasileiros terão a chance de conferir a performance dos Smashing Pumpkins ao vivo. Eles estão no elenco do Hollywood Rock, que acontece no final do mês em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em seu país, a banda é uma mania. Aguardando o lançamento de Mellon Collie, os americanos fizeram fila, à meia-noite, na porta das lojas de discos. Mesmo sendo duplo, o CD vendeu 3 milhões de cópias só nos Estados Unidos. O segredo desse sucesso está na sonoridade do grupo, que pouco se parece com o rock atual. Nevermind, do Nirvana, inaugurou uma nova estética por colocar em evidência guitarras cruas, desprezar sons acústicos e endeusar, em letras simples e diretas, um estilo de vida despojado, próprio da geração X.

HARPA E TRIÂNGULO - Animados pelo exemplo do Nirvana, os roqueiros passaram a acreditar que a boa música era feita com três acordes, sem vôos nos arranjos e com letras que não falavam grande coisa, mimetizando, por assim dizer, o "ceticismo dos anos 90". O niilismo de butique de Kurt Cobain e asseclas acabou com um tiro na cabeça, disparado pelo próprio, num quartinho de sua casa. Mellon Collie é uma reação contra a pobreza de Nevermind. Longe de ser despojado, ele recupera a inventividade que já teve lugar no rock e acabou descartada pela preguiça dos roqueiros "desencanados". Quem ouve Mellon Collie de olhos vendados pode duvidar que todas as músicas sejam da mesma banda. Abrindo o CD, um piano acústico e uma orquestra. Na faixa seguinte, contrabaixo, guitarra e bateria juntam-se à orquestra, lembrando as experimentações feitas nos anos 70 por grupos como o de John McLaughlin. Na terceira, uma guitarra dispara solos como os de Jimi Hendrix em Woodstock. Mais adiante, uma harpa encorpa o arranjo, enquanto um triângulo, daqueles de fanfarra, ajuda na percussão.

Ser criativo e eclético no rock exige muito mais macheza do que dar uma de rebelde sem causa e destruir guitarras no palco. Ao optar pela inventividade, o grupo se arrisca a desagradar a grunges e baianos. Quem é metaleiro não tolera um quarteto de cordas. Fãs de harpa torcem o nariz para baterias digitais, e assim por diante. Só em raríssimos casos a mistura fica boa a ponto de seduzir tribos variadas. É o que acontece em Mellon Collie, como aconteceu com Sgt. Pepper's, dos Beatles. Na ocasião, os quatro súditos da rainha Elizabeth romperam com o rock ingênuo ao criar melodias complexas e arranjos chiques, com cítara e tablas indianas, sopros e cordas. Depois dos Beatles, isso virou moda e acabou banalizado. No caso dos Pumpkins, não se trata de requentar um procedimento manjado. Eles combinam instrumentos acústicos com a sonoridade computadorizada da época atual, num resultado que, além de encher os ouvidos, soa como um protesto contra a ideologia "largadona" a que o rock se submeteu.

Os Pumpkins são bem-sucedidos em sua ambição artística graças, em parte, ao talento do vocalista Billy Corgan, de 28 anos, que também é guitarrista e compositor. Obsessivo, ele é o eixo do grupo, e o controla como um tirano. Nada modesto, costuma dizer em entrevistas que juntou músicos que mal sabiam tocar e deu a eles a chance de entrar para uma banda que jamais sonhariam. Excêntrico, ele cultiva um visual andrógino e muda de aparência de uma hora para outra, como Madonna troca o penteado e a tintura do cabelo.

Esquisitices à parte, Corgan é um vocalista que tem gogó e idéias. Como faz David Bowie, suas interpretações, em vez de seguir um padrão uniforme, variam de música para música. Na faixa To Forgive, quando filosofa sobre a ingenuidade da infância, ele adota um falsete que lembra um pouco o de Mick Jagger. Já em Zero, ao vociferar contra uma paixão não correspondida, sua voz fica rouca e agressiva como a de Max Cavalera, do Sepultura. As letras do disco, que também são assinadas por Corgan, falam de assuntos bem mais variados do que o blablablá dos roqueiros preguiçosos. Corgan não é nenhum Bob Dylan, mas tem o que dizer. Mistura vaselina, néon, cupido, galáxias inabitadas, rubis e garotas que não são estúpidas. Sem a pretensão de ser um Walt Whitman do rock, consegue ir além das quatro paredes de um quarto puído ou de uma garagem mofada. Ou seja: foge das letras narcisistas que são a marca da época atual. Prefere as imagens mirabolantes. Ambienta canções nas Ilhas Galápagos e fala de balas de revólver com asas de borboleta.

ROUPA SUJA - O rock é uma fogueira de vaidades. Todo integrante de uma banda odeia seus colegas de palco. Mesmo assim, os roqueiros costumam posar de amigos de infância. Nisso, os Pumpkins inovam. Eles admitem abertamente que se odeiam. Nenhum freqüenta a casa do colega. A baixista D'Arcy e o guitarrista James Iha, filho de japoneses, já foram namorados, brigaram feio e são obrigados a conviver por causa da banda. Uma história parecida, envolvendo os ex-Mutantes Rita Lee e Arnaldo Batista, quase levou o cantor ao suicídio. Explorando suas mazelas, os Pumpkins fazem na imprensa especializada em rock o mesmo que o casal Charles e Diana faz no resto dela: lavam roupa suja.

O vácuo provocado pelo suicídio de Kurt Cobain tem ajudado os Pumpkins a ocupar o trono do rock em seu país, seja na preferência dos roqueiros, seja na bajulação da crítica. Os Estados Unidos não têm uma tradição forte de bandas de rock. Elas costumam aparecer com mais freqüência na Inglaterra, berço de Beatles, Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin, Queen, Iron Maiden e tantas outras. Americano cultua estrelas solitárias como Elvis Presley, Michael Jackson, Madonna e Prince. Grandes bandas, quando surgem nos EUA, costumam girar em torno de si mesmas, fazendo com que sua música soe repetitiva. Os Smashing Pumpkins vão além do óbvio e servem como meio de transporte para quem quer fazer uma viagem pelo mundo do rock. Comparados com os grupos atuais, que são carros de boi, eles levam o ouvinte, de Boeing, numa expedição por sonoridades nunca antes exploradas.

[Revista Veja, 10 de janeiro de 1996, edição 1426]